Um caso recente de ataque cometido por um cão contra um trabalhador,
na Grande Natal, voltou a levantar o debate sobre a responsabilização de
tutores diante de incidentes envolvendo animais. De acordo com
especialistas ouvidos pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, esses casos
revelam falhas no manejo dos animais e não devem ser associados a uma
“agressividade natural” de algumas raças.
No último dia 6 de março, o trabalhador Francisco Paulo da Silva, de
62 anos, morreu após ser atacado por um cão da raça pitbull. Ele havia
sido contratado para realizar a limpeza da área externa da casa da
tutora do animal, onde foi atacado na perna pelo cão. A tutora foi presa
por suspeita de ter provocado o ataque e o caso segue sob investigação
na Polícia Civil do Rio Grande do Norte.
O médico veterinário Nirley Formiga, presidente do Conselho Regional
de Medicina do Rio Grande do Norte (CRMV/RN), explica que a maior parte
dos casos já acompanhados pela entidade envolvendo ataques de cães estão
associados a falhas na guarda responsável e não ao aumento real da
agressividade natural dos animais.
“A literatura científica indica que o comportamento agressivo em
animais, especialmente cães, está muito mais relacionado ao manejo,
socialização, treinamento e ambiente em que o animal é criado do que
propriamente à raça. Qualquer animal pode apresentar comportamento
agressivo quando exposto a situações de estresse, medo, dor ou manejo
inadequado”, explica o presidente do CRMV/RN.
De acordo com Nirley Formiga, entre os erros mais comuns que podem
ser cometidos pelos tutores estão a falta de socialização adequada desde
o filhote, o manejo incorreto do animal, a ausência de treinamento e o
estímulo involuntário a comportamentos agressivos. Além disso, a falta
de cuidado com a saúde do animal pode causar dor ou irritabilidade.
A advogada Juliana Rocha, presidente da Comissão de Direito Animal da
OAB/RN, também desmistifica a ideia de que alguns animais são
naturalmente violentos. De acordo com ela, o principal desafio tem sido
romper uma cultura que enxerga algumas raças como uma ferramenta de
promoção à segurança.
“Infelizmente muitas pessoas ainda pensam que o animal substitui
segurança, cerca elétrica e instrumentos de vigilância. Então escolhem,
muitas vezes, um animal de grande porte para poder usar como guarda,
como um cão da raça pitbull, e criam esse animal para que fique
agressivo para a defesa de território”, destaca a advogada.